Só tudo...

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Aprendendo a Viver - Clarice Lispector

Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.
Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas "melhore o momento presente", exclamava. E acrescentava: "Estamos vivos agora." E comentava com desgosto: "Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar."
A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na seqüência dos agoras é que você existe.
Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.
Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam - ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos - ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.
Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. "É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber."
E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: "Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?" Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.
Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: "A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos." É verdade: mesmos as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois: "o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino."
E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. "Creio", escreveu, "que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força." E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas - e quem de nós não faz isso? - , como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!
E um dia desses, abrindo um jornal e lendo um artigo de um nome de homem que infelizmente esqueci, deparei com citações de Bernanos que na verdade vêm complementar Thoreau, mesmo que aquele jamais tenha lido este.
Em determinado ponto do artigo (só recortei esse trecho) o autor fala que a marca de Bernanos estava na veemência com que nunca cessou de denunciar a impostura do "mundo livre". Além disso, procurava a salvação pelo risco - sem o qual a vida para ele não valia a pena - "e não pelo encolhimento senil, que não é só dos velhos, é de todos os que defendem as suas posições, inclusive ideológicas, inclusive religiosas" (o grifo é meu).
Para Bernanos, dizia o artigo, o maior pecado sobre a terra era a avareza, sob todas as formas. "A avareza e o tédio danam o mundo." "Dois ramos, enfim, do egoísmo", acrescenta o autor do artigo.
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!
Feliz Ano Novo.
(publicação Jornal do Brasil - 28 de Dezembro de 1968)

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Dia de Narciso

Hoje meus espelhos estão belos, refletem mais que
uma imagem conhecida.
Refletem o olhar nos olhos de mim mesma,
minha verdade mutante, a surpresa de ser eu,
a alma não tão boa, nem tão má,
a alma real, minha lindeza verdadeira!!
Quem nunca foi Narciso que atire a primeira pedra!
ou
Permita-se experimentar!

Caroline C. Rosa

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Cotidiano

A vida parece ser bem mais prática
quando consumimos mais...
Pra mim essa é a grande ilusão do capitalismo...

Faminta engulo a comida industrializada...
Minha mente recusa-se a lembrar
dos insights e percepções,
que dizem que esse mundo sistêmico
é pura invenção convencionada
e só existe porque é aceito...

Me sinto num filme de Almodóvar
onde tudo é kitsch,
vou seguindo,
interpretanto as várias mulheres que sou...

Quando me aborreço...
O tempo todo me aborreço!
... então me entorpeço,
com:
Ervas, Álcool, Café e Arte!

E por algum tempo esqueço
que há "ordem" por toda parte.
Nesses momentos de esquecimento
eu vivo bem,
Eu realmente me sinto viva...

Mas olho o relógio, descubro
as horas e que dia é hoje,
é quinta-feira..
Chega, chega de "besteira"!

Lá vou eu, pro meu compromisso,
ou melhor,
pro meu sumiço...

Tomo um banho de areia,
lavo os olhos com lodo e os
ouvidos limpo com cera,
que é pra ver e ouvir melhor
a vida como ela deve ser vista...
... e nunca esqueço de logo quando
acordar tomar um copo
do amargo e forte cotidiano.

Dizem que faz muito bem
pra mente principalmente
quando é servido quente...
Você não se pergunta mais nada,
fica tudo muito natural...

Salve, o Cotidiano quando tenho
que seguir a vida e ser "máquina".

Salve, as Ervas, o Álcool, o Café e as Artes,
quando a "máquina" se quebra em partes.

Caroline C. Rosa